segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Polícia, para que precisa?

Acontece nos 4 Domingos que antecedem o Carnaval, tem início a partir das 16h quando o trio elétrico liderado pela animada banda Garibaldis e Sacis e colaboradores partem do alto do Largo da Ordem, descendo vagarosamente até chegar no antigo bebedouro de cavalos.

Assim vem sendo feito o Pré-Carnaval em Curitiba, que já marca presença na capital paranaense a 13 anos e reúne gente de todos os tipos: velhos, jovens, crianças, travestidos, mulheres, turistas, mendigos, galera do funk e do surf, fantasiados, gente com pouca roupa, meninos... Todo mundo tava lá com o mesmo intuito, de se divertir e pular carnaval ao som das boas e velhas marchinhas. E claro, tomar aquela cervejinha estupidamente gelada, vendida em diversos pontos nos isopores ambulantes ao módico preço de 3 reais a lata, ou então a bebida já quase oficial do evento, o Fontana, espécie de licor de maça e morango, vendido em garrafas de plástico esverdeado. Os únicos que não estavam na festa eram os policiais, deixando o evento sob controle dos próprios participantes que, diga-se de passagem, não decepcionaram: cerca de 7 mil pessoas nos domingos mais quentes.

O evento todo é organizado pela comunidade, com pouquíssima ou quase nenhuma ajuda da prefeitura, que dá a permissão para fechar algumas ruas durante o evento para a passagem de veículos. Algumas entidades privadas dão seu apoio monetário e logístico para que toda a folia aconteça!

No dia 05 de Fevereiro lá estávamos, dançando, Fontana na mão, conversando com os que trombávamos pelo caminho, muito calor e muita alegria. Não vi nenhuma briga durante todo o tempo, inclusive em determinado momento Garibaldis e Sacis parou a música porque viram do alto do trio elétrico uma confusão que logo foi resolvida, e a festa foi rapidamente retomada!

Por volta das 21h o trio se despede e se recolhe. Muita gente se foi para suas casas mas muita gente continua dançando, bebendo, cantando pelas ruas de paralelepípedo e dentro dos bares. Algum tempo depois, houve reclamação do barulho e a polícia decidiu aparecer e nos brindar com o ar de sua graça. Neste momento estávamos na fila do banheiro dentro do Bar Sal Grosso, e a sucessão de eventos que aconteceu durante a meia hora seguinte me fez acreditar que estávamos dentro do filme Tropa de Elite.

Aparentemente jogaram uma garrafa de vidro na viatura da polícia militar que estava chegando para controlar o nível de ruído, e isso fez com que eles tomassem medidas drásticas. Por volta de 15 PMs com espingardas de bala de borracha na mão, atirando bombas de efeito moral, e 5 viaturas começam a fazer todo mundo correr para se defender. Os bares fecharam suas portas com todo mundo que estava dentro para se proteger. As pessoas corriam, gritavam, xingavam os policiais, e alguns usaram parte das barracas da feirinha hippie que estavam empilhadas por ali como escudo, e jogaram pedras e garrafas nos policiais que se defendiam dando tiros com bala de borracha e porradas com o cacetete.

O barulho e os clarões das bombas estourando em algum lugar muito próximo dali, os estrondos dos disparos, garrafas quebrando, gritos, foi um espetáculo surreal diante dos meus olhos em um domingo atipicamente quente na nossa capital ecológica.

Quando a coisa parecia estar mais calma, o Bar reabriu suas grades de ferro e as pessoas puderam sair com cautela. As viaturas ainda estava por ali, tinham policiais armados caminhando entre as garrafas quebradas e as barraquinhas destruídas jogadas pelo chão. Outro motim dos policiais teve início e dessa vez tivemos que nos refugiar dentro do Restaurante Madero e assistir assustados a cenas chocantes pelos vidros das janelas.

Meu sentimento durante os tristes acontecimentos que tiveram lugar no famigerado largo da ordem foi de impotência. Não podíamos fazer nada, e não tínhamos a quem recorrer! Realmente fiquei petrificada de medo da própria polícia, quem reagiu levou tiro, muita gente sangrando, as pessoas só queria fazer eles pararem. Pode parecer ridículo, porém em mais de uma ocasião pensei: "vamos chamar a polícia pra acabar com essa palhaçada e prender esses policiais arruaceiros". Opa.


O que vi foi falta de humanismo, perda de controle da situação e abuso do poder. Parecia que eles estavam entediados e queriam um pouco de ação.

Eu concordo que os participantes do evento não eram exatamente inocentes: muita gente fazendo uso de droga, uso abusivo do álcool, algumas lixeiras quebradas, desacato a autoridade, vendedores ambulantes ilegais, ruído excessivo em rua pública e local residencial após as 22h, etc. Porém a atitude dos policiais foi de extrema violência e desrespeito aos direitos humanos. Foi desnecessária e abusiva.

A ação da polícia deveria acontecer sim, porém não da forma como foi. Os policiais só geram raiva e violência com essa imposição da ordem a força. Pessoas que estavam lá para se divertir acabaram prejudicadas, gente que estava trabalhando saiu sangrando... O evento deve ser feito em parceria e controlado pela polícia, de forma humana e digna, onde os cidadãos se sintam seguros e respeitem as leis.

Sinto dizer que tenho medo da polícia no Brasil, que me sinto totalmente desprotegida e que não acredito que possa contar com os serviços deles para nada. Inclusive os vejo como corruptos, despreparados e não tenho respeito nenhum pelos PMs. O acontecimento de ontem só serviu para reforçar esse sentimento e aumentar minha vontade de fazer alguma coisa. Mas o que?

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